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quarta-feira, 27 de maio de 2009

Divisão de Personalidade

Muitas pessoas, a maioria, são dominadas por tendências conflitivas, e em ocasiões se comportam de maneira que surpreende aos que bem as conhecem e inclusive elas mesmas se admiram com o que fizeram ou disseram.

Em algumas pessoas essas tendências podem ser agudamente incompatíveis. Nesses casos, junto à parte conscientemente aceita, pode o inconsciente moldar com a parte não aceita uma espécie de segundo eu, tornar-se independente e agir por conta própria.

Pode ser suficiente a comparação – um tanto simplificada, mas clara – no livro e filme O Exorcista: “Imagine por um momento que a pessoa humana seja um impressionante transatlântico, que as células cerebrais sejam a tripulação. Uma dessas células está sobre a ponte. É o capitão. O capitão é sua consciência alerta. O que acontece no desdobramento da personalidade é que as células da tripulação das cobertas de baixo (do inconsciente) sobem à ponte e se fazem cargo do mando. Em outras palavras, um motim”.

Sendo que a personalidade “oficial”, e consciente, não reconhece aquela parte “amotinada” do inconsciente, esta se apresenta disfarçada. O inconsciente se mascara (prosopopéia) como se fosse um demônio, um espírito, uma pessoa reencarnada, um pitão, uma musa etc.

A “reação de fuga” é um tipo de dissociação, com troca duradoura de personalidade. Uma pessoa não suporta determinada situação, por exemplo, a familiar. Mas não quer conscientemente reconhecê-lo. Não reconhece outras tendências e as reprime, as nega. De repente, um dia, viaja para um lugar longínquo, começa vida nova, trabalha, se casa, tem filhos, completa e sinceramente esquecida do seu próprio nome, do trabalho e família anteriores...

Trocas duradouras de personalidade são raras, muito raras. Passageiras, porém, são freqüentíssimas. “Outra” personalidade acompanha quase sempre os fenômenos parapsicológicos.

Em quase todos os casos considerados demoníacos ou espíritas há algo de parapsicológico. Se há fenômenos parapsicológicos, agrava-se o aspecto externo.

Durante séculos a ciência se manteve à margem: só se interessou pelo curso comum da natureza, as leis, o regular. Estes fenômenos à margem do comum, parapsicológicos, foram ignorados. E caíram no âmbito falsamente religioso. Os doentes parapsicológicos (chamados “psíquicos”) foram remetidos a outros doentes iguais, aos médiuns, ou aos exorcistas... Erro da ciência, erro da religião.

Um professor da Universidade de Tubinga estudou o tema detidamente. Seu livro adquiriu bastante difusão. Ele constatou que a “possessão” (desdobramento da personalidade, prosopopéia) é freqüente, dá-se em todos os países, em todas as épocas, em todos os tipos de religiões e pseudo-religiões, “incorporando” toda classe de deuses, demônios, espíritos e mil outras entidades.

De preferência maus. A prosopopéia tipo demônios é muito mais freqüente que qualquer outra prosopopéia representando entidades boas ou indiferentes. A oposição ou antagonismo entre dois aspectos da personalidade, “bom” e “mau”, provoca a cisão. Às vezes o próprio psíquico sente e as testemunhas têm a ilusão de que duas entidades diferentes lutam pela posse do seu corpo.

Pode haver também múltiplas personalidades. A síntese do eu “oficial” se cinde em três, quatro ou mais pedaços. Pode dividir-se em numerosos frangalhos, simultânea ou alternadamente tomando a direção do “barco”. Passageiramente ou por muitos anos.

Por Luiz Roberto Turatti, aluno do Centro Latino-Americano de Parapsicologia, CLAP (www.clap.org.br), dirigido pelo Prof. Dr. Padre Oscar González-Quevedo, S.J.

Esse artigo já foi publicado em:
- “Tribuna do Povo”, Araras/SP (Brasil), sábado, 18/3/1995;
- “Jornal de Parapsicologia”, Braga (Portugal), março/1997;
- “Anais de Nossa Sra. do Sagrado Coração”, São Paulo/SP, maio/2001;
- Usina das Letras
- Parapsicologia Geral
- Católica Net

sexta-feira, 22 de maio de 2009

O incrível caso de Phineas Gage

Em 1848, Phineas Gage era supervisor de construção de ferrovias da Portland & Burland Railroad. Impávido e dotado de um senso de responsabilidade incomum, o jovem e zeloso capataz – ele tinha apenas 25 anos de idade – reservava para si as tarefas mais perigosas. Poupando os seus subordinados das atividades que envolvessem sérios riscos, assumia pessoalmente a responsabilidade de explodir as rochas situadas no traçado da estrada de ferro.


Cranio e imagem de Phineas Gage, reconstituída a partir da máscara mortuária

Naquele fim de tarde, em Vermont, Estados Unidos, o jovem capataz protagonizou um acidente histórico, que permitiu à Ciência constatar que os danos ao córtex cerebral afetam a personalidade do indivíduo.

Uma carga de pólvora fora colocada pelo próprio supervisor na abertura de uma rocha. Então Gage empunhou uma barra de ferro de um metro de cumprimento e 2,5 centímetros de diâmetro para socar o orifício. Inadvertidamente, a barra resvalou na abertura do buraco. O atrito ocasionou uma fagulha, que fez a pólvora acender. Conforme esclarece R. M. E. Sabbatini (http://www.cerebromente.org.br/n02/historia/phineas_p.htm), a explosão que se seguiu “projetou a barra, com 2.5 cm de diâmetro e mais de um metro de comprimento contra o seu crânio, a alta velocidade. A barra entrou pela bochecha esquerda, destruiu o olho, atravessou a parte frontal do cérebro, e saiu pelo topo do crânio, do outro lado. Gage perdeu a consciência imediatamente e começou a ter convulsões. Porém, ele recuperou a consciência momentos depois, e foi levado a médico local, Jonh Harlow que o socorreu. Incrivelmente, ele estava falando e podia caminhar. Ele perdeu muito sangue, mas depois de alguns problemas de infecção, ele não só sobreviveu à horrenda lesão, como também se recuperou bem, fisicamente.”



Como ficou Phineas Gage após o acidente

Todavia, o zeloso Gage anterior à explosão, “descrito como equilibrado, meticuloso e persistente quanto aos seus objetivos, além de profissional responsável e habilidoso”, conforme pondera Cristina Marta Del-Ben (http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-60832005000100004), simplesmente desapareceu. Em seu lugar, assomou, conforme concluiu o neurobiologista António Damásio, “uma pessoa impaciente, com baixo limiar à frustração, desrespeitoso com as outras pessoas, incapaz de adequar-se às normais sociais e de planejar o futuro. Não conseguiu estabelecer vínculos afetivos e sociais duradouros novamente ou fixar-se em empregos.”

Embora tenha milagrosamente sobrevivido à explosão, o capataz, que permanecera o resto da vida com a barra de ferro transfixada na face, tornou-se mesmo uma pessoa completamente diferente. Pouco tempo depois ao acidente – acresce Sabbatini – Phineas começou a ter mudanças surpreendentes na personalidade e no humor. “Ele tornou-se extravagante e anti-social, praguejador e mentiroso, com péssimas maneiras, e já não conseguia manter-se em um trabalho por muito tempo ou planejar o futuro.” O Phineas sobrevivente – pontuam William K. Purves, David Sadava e Gordon H. Orians – “era briguento, mal humorado, preguiçoso e irresponsável. Tornou-se impaciente e obstinado, passando a usar um linguajar rude nunca antes utilizado por ele.” “Phineas já não é mais Phineas”, diziam seus amigos.


Imagens do crânio e da barra de ferro que atingiu Phineas Gage

Estudos recentes, desenvolvidos pelos neurobiologistas portugueses Hanna e António Damásio, indicam que a maior parte dos danos sofridos por Gage incidiu sobre a região ventromedial dos lobos frontais, em ambos os lados, sem que a área cerebral responsável pela fala e funções motoras fosse afetada. Os cientistas, da Universidade de Iowa, empregaram técnicas de computação gráfica e de tomografia cerebral para avaliar a possível trajetória da barra de ferro, concluindo que as alterações de comportamento provavelmente decorreram da lesão. Observaram os pesquisadores que outros pacientes, com lesões semelhantes à de Gage, igualmente apresentaram déficits nos processos de decisão racional e no controle das emoções.


Reconstituição dos danos sofridos por Gage por computação gráfica

William K. Purves, David Sadava e Gordon H. Orians apontam que Gage passou o resto de sua existência como um desocupado, ganhando a vida contando a sua história, exibindo a barra de ferro e as suas cicatrizes. Ele morreu treze anos depois do acidente, pobre e epilético. Seu crânio, sua máscara mortuária e a barra de ferro estão em exibição no Museu da Faculdade de Medicina da Universidade de Havard.


Crânio de Phineas Gage

O terrível acidente que vitimou Phineas Gage permitiu à medicina constatar, em definitivo, que a personalidade do indivíduo reside no encéfalo. O acidente tornou-se um caso clássico nos livros de ensino de neurologia, já que, conforme pondera Sabbatini, a parte do cérebro afetada – os lobos frontais – passou a ser associada às funções mentais e emocionais que, no caso de Gage, ficaram alteradas. Ou, em síntese, como disse António Damásio,"Gage foi o início histórico dos estudos das bases biológicas do comportamento".

Fontes:

R. M. E Sabatini, “O espantoso caso de Phineas Gage”, disponível em:http://www.cerebromente.org.br/n02/historia/phineas_p.htm .

William K. Purves, David Sadava, Gordon H. Orians et al. : “Vida: a Ciência da Biologia”.

Jim Hiks et al. : “Para além da mente”, Col. “Mistérios do desconhecido”, Times-Life.

Cristina Marta Del-Ben: “Neurobiologia do transtorno de personalidade anti-social”, disponível em:http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-60832005000100004.